A Pomba genuína
A vida da Venerável Madre Maria Crucifixa de Jesus foi um holocausto de suave odor, consumado no altar da Cruz, muito agradável a Deus. Ele a escolheu, desde toda a eternidade, para o sublime momento de fundação do nosso Instituto na Igreja. Madre Crucifixa nos ensina que, ser chamada a fazer parte desse Instituto, é ser convidada a tomar parte nas Núpcias do Cordeiro, ¹ com o devido traje de festa: ²
“Madre Crucifixa, esteja sempre vestida de festa. Como? No seu interior esteja sempre revestida das penas de Jesus Crucificado. Esteja crucificada e morta para as coisas do mundo e viva somente para Deus.” ³
Madre Crucifixa vivia, respirava e aspirava somente ao Divino Esposo Crucificado, 4 trazendo indelevelmente escrito em seu coração a Santíssima Vida, Paixão e Morte do Dulcíssimo Jesus, sacrificado sobre o Calvário para a redenção do mundo, 5 plasmando assim a identidade da Monja Passionista.
Nascida de um parto prematuro em 18 de agosto de 1713, em Corneto – Itália, atual Tarquínia, e correndo risco de morte, foi batizada no mesmo dia, recebendo o nome de Faustina Gertrudes Costantini. Parecia estar mais morta do que viva, ficando por dois meses sem chorar ou sugar o leite, alimentada forçosamente pela mãe. 6 Mas Deus, que a tinha criado para o louvor de Sua glória, ao vê-la definhar, disse-lhe: “Vive!”, 7 restituindo sua saúde e vivacidade. Depois dos 9 meses de vida, Faustina crescia e se desenvolvia normalmente. Educada na escola das Irmãs Pias Mestras, além de leitura, instrução religiosa, canto, oração e trabalhos manuais, aprendeu o amor a Jesus Crucificado. 8 Seria esse um presságio de sua vida monacal? Ainda na infância, Sua Divina Majestade suscitou em seu coração um vivo desejo de sofrer por Seu amor. Ao rezar diante de um crucifixo, implorava que lhe fosse concedida uma chaga para poder assim sofrer, contanto que esta fosse escondida a todos! 6 Chegada à idade dos amores, sentiu-se seduzida pela vaidade mundana, mas Deus a preservou, tornando-a zelosa, a fim de não O ofender ao se apegar com afeto desordenado a alguma criatura.
A Chama do Infinito Amor logo passou a arder em seu coração juvenil, despertando uma sede que somente o Oceano da Divina Caridade seria capaz de saciar. Inicialmente todos os prazeres do mundo converteram-se em amargura, levando-a a fazer uma confissão geral e a meditar assiduamente a Paixão de Jesus e as Dores de Maria Santíssima. Depois, com espírito de reparação e para dar maior gosto a Jesus, passou a fazer frequentes jejuns, macerar seu delicado corpo com a disciplina e a praticar, diligentemente, as santas virtudes. Jesus Crucificado não se deixou vencer em generosidade, inspirando-lhe o desejo de consagração total e acolhendo-a no Seu jardim de delícias. Faustina ingressa então no mosteiro beneditino de Santa Luzia, na sua cidade natal, tomando por nome Candida Crucifixa. Embora muito feliz por estar no divino serviço, providencialmente, sentia uma inquietação em seu coração, perguntava-se se o seu sonho de uma vida austera, toda de imolação por Cristo, poderia ser vivida no mosteiro onde estava. Essa dúvida foi sanada, às vésperas de sua Profissão Religiosa, com a promessa do Esposo Sacramentado: “Faça seus votos e permaneça até que Deus a oriente para outro destino. Você realizará seu ideal de expiação pelo mundo… Não morrerás aqui!” 9 Estava lançada a semente de uma nova fundação, semeada no Calvário do seu coração, onde muitas Pombas do Crucificado viriam fazer ninho sob a sombra da Árvore da Cruz. Com a alma serenada, faz seus votos em 22 de novembro de 1734.
Toda a vida de Madre Crucifixa, marcada pelo rigor ascético (sendo muitas de suas práticas penitenciais mais admiráveis do que imitáveis), pelos favores singulares do Céu, as visitas celestes, arroubos e êxtases, a sabedoria infusa recebida do Senhor; poderia nos levar a pensar ser essa a sua maior contribuição para a santidade do nosso Instituto. No entanto, a sua mística e o seu ascetismo foram o meio para dilatar o coração e abri-lo ao acolhimento do Senhor e dos irmãos. 10 Deus colocou em seu destino uma alma gêmea, que seu coração dilatado foi capaz de reconhecer imediatamente! E assim como nos é impossível imaginar um São Francisco sem uma Santa Clara, ou um São João da Cruz sem uma Santa Teresa d’Ávila, como pensar em uma Madre Crucifixa sem um São Paulo da Cruz? Desde então, ambos aspiravam ao mesmo ideal: irradiar no Coração da Igreja o Amor do Crucificado. A partir desse encontro, por volta do ano 1739, a santidade característica de Madre Crucifixa passa a ser moldada pela doutrina espiritual do Padre Paulo da Cruz, que a prepara para vestir o hábito do primeiro Mosteiro de Monjas Passionistas, um itinerário espiritual que terá um longo período de gestação, cerca de 30 anos, marcados por dificuldades financeiras, guerras, insucessos com a Santa Sé e sobressaltos com os principais benfeitores. Em meio a muitas dores, foi dada à luz ao primeiro Mosteiro, fundado em Tarquínia a 3 de maio de 1771, e Candida Crucifixa se tornou Maria Crucifixa de Jesus, perfeitamente condizente com seu ideal de imolação:
“Esteja de verdade crucificada com Cristo, de acordo com o seu nome… Ofereça-se frequentemente a Deus como vítima de holocausto, consumado no altar da Cruz, e nele realizando a sua morte mística, que traz em si uma nova vida de amor.” 11
A perfeita sintonia existente entre essas duas almas eleitas por Deus nos deixou como legado uma sinfonia de amor doloroso, morte amorosa e dor amorosa, que somente os amantes de Jesus Crucificado sabem entoar. Eis o cântico que a Pomba genuína entoou até o último instante de sua vida cristificada:
“Procuro sofrer em tudo, sem jamais me cansar e por amor de Jesus. Além disso, sinto que posso suportar sempre maiores sofrimentos do que os que já padeço. Sem jamais buscar alívio no meu penar, tudo suporto em silêncio para ser, de qualquer modo, verdadeira seguidora de meu Amabilíssimo Senhor. Oh! Quanto desejo ser sua verdadeira seguidora!” 12
No seu leito de morte, consumida pelo câncer, cegueira e acerbíssimas dores, totalmente conformada com seu Divino Esposo Crucificado e como perfeita discípula do maior místico do século XVIII, ela realizara seu ideal de expiação pelo mundo, deixando-nos um último ensinamento:
“O amor é força de união e faz seus os tormentos do Bem muito amado. É um fogo que vai até a medula e converte o que ama no amado. De modo mais profundo, o amor se mistura à dor, e a dor, ao amor. Há, então, uma mistura de amor e dor tão estreita que não se pode separar o amor da dor, nem a dor, do amor. Por isto, quem ama se alegra com sua dor, e exulta em seu amor sofredor.”13
Madre Maria Crucifixa de Jesus entregou sua vida a Deus em 16 de novembro de 1787, aos 74 anos de idade, sendo 53 de vida religiosa e 15 como Monja Passionista. Foi declarada Venerável em 17 de dezembro de 1982.
Irmã Paulina Addolorata das Santíssimas Chagas, cp
Mosteiro São Paulo da Cruz (São Carlos – BR)
Ap 19, 9.
Cf. Mt 22, 11-12.
Carta de São Paulo da Cruz a Madre Crucifixa, 3 de setembro de 1754.
Regra de São Paulo da Cruz, n. 40 (R/40).
Regra de São Paulo da Cruz, n. 1 (R/1).
Positio super virtutibus Mariae Crucifixae a Iesu, Roma 1964, pp. 281-282.
Cf. Ez 16, 6.
Dario di Giosia., Madre Maria Costantini e il primo monastero delle Passioniste, p.14, Velar, 2024.
Paolo Risso., E Lui l’ha rapita (Profilo biografico di Faustina Costantini), p. 26, Milano, 1983.
Vita Consecrata, n. 38.
Paolo Risso., E Lui l’ha rapita (Profilo biografico di Faustina Costantini), p. 58, Milano, 1983.
Paolo Risso., E Lui l’ha rapita (Profilo biografico di Faustina Costantini), p. 90, Milano, 1983.
Liturgia das Horas. v. IV. Segunda leitura: Das cartas de São Paulo da Cruz, presbítero., p. 1402, 1999.
